Para não dizer que não falei de Aluísio Azevedo

Por que as coisas não funcionam no Maranhão? Por que o brasileiro, o maranhense em específico, é um povo tão sem memória? Há alguns meses, graças a uma denúncia do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, o Ministério Público entrou com uma Ação Civil Pública para embargar a obra que pretendia construir um estacionamento no casarão histórico onde viveu Aluísio Azevedo, escritor e jornalista maranhense introdutor do Naturalismo no Brasil, e no qual em seu mirante escreveu “O Mulato”. Além disso, a ação prevê a restauração do imóvel pela proprietária. Mas passados tanto tempo nada foi feito e o casarão pode desabar. Um descaso com a cultura e a memória do nosso estado. O que é lamentável.

Já tive a oportunidade de viajar para alguns lugares e perceber como as pessoas valorizam seu passado, sua gente, seus grandes nomes em diversas áreas de conhecimento. Nas artes, em específico, isso é bem mais latente.

Em Madrid, na Espanha, a casa onde viveu o poeta Lope de Vega (1562-1635) foi restaurada pela Real Academia de Lengua Española e transformada em museu, onde se conta um pouco da história do escritor. Em, 1935, a casa foi declarada Monumento Nacional durante a celebração do terceiro centenário de sua morte.

Em frente à casa a inscrição em latim também restaurada: “Parva propria magna, magna aliena parva“. Em português: “A casa própria é grande, ainda que seja pequena. A casa alheia é pequena, ainda que seja grande”. Nela, Lope de Vega reflete sua satisfação em possuir um lar próprio, algo bastante difícil numa época em que os poetas viviam em constantes dificuldades econômicas. Próximo dali, fica a casa do maior escritor espanhol, Miguel de Cervantes, que também foi declarada Monumento Nacional; muito bem preservada.

Em Paris, um dos mais célebres romancistas franceses, Victor Hugo, autor de “Os miseráveis” e “Notre-dame de Paris”, também teve sua casa transformada em museu. A casa onde viveu com sua esposa por mais de 16 anos, na Place des Voges, guarda coleções permanentes que vão desde escritos e documentos literários do autor, bem como mobiliários e “decoração” concebida por ele para os cômodos do apartamento.

No Chile, Pablo Neruda, talvez o maior nome da literatura desse país, não teve só uma, mas três de suas casas transformadas em museus e estão entre as atrações culturais mais visitadas do país, movimentando o turismo local. São elas: La Chascona, em Santiago; La Sebastiana, em Valparaíso; e Isla Negra, em Isla Negra. Todas contam um pouco da trajetória intelectual do poeta.

Não muito longe, em Belo Horizonte, a casa onde passou a infância Guimarães Rosa, vejam só, há 40 anos também recebe visita de turistas. A casa onde nasceu o autor de Sagarana é hoje um museu que reúne bom acervo de fotos, coleção com as indefectíveis gravatas-borboleta, toda a obra literária, matrizes de xilogravuras usadas em volumes como Corpo de Baile (1956), espada, bainha e diploma da Academia Brasileira de Letras, máquina de escrever, rascunhos de trabalhos e outros objetos pessoais.

Então me digam por que por aqui as coisas têm de ser mais difíceis, tudo mais moroso e burocrático? E porque só agora, quando o prédio está quase virando pó se começou a tomar alguma atitude. Não cabe aqui só culpar o poder público ou a iniciativa privada, a culpa é de todos nós que só sabemos “lutar pelos direitos” quando a ferida é na nossa pele e quando ela está bastante infeccionada, a ponto de amputar um membro.

São Luís, que já é tão carente de espaços culturais, está perdendo a oportunidade – mais uma oportunidade – de atrair turistas, de movimentar a economia local e de melhor as condições de vida dos moradores da cidade. Sem falar no grande abismo negro que estamos jogando o nome de um dos mais brilhantes escritores brasileiros e na falta de ação para preservação do patrimônio arquitetônico que deu à cidade o título de Cidade Patrimônio da Humanidade. Como eu queria poder levar meus alunos de Literatura para conhecer a sua obra através de uma experiência diferente, além da sala de aula!

Amo a minha cidade, sou muito otimista de que ela poderá ser uma grande cidade turística, falada (bem falada) pelo mundo a fora. Mas do jeito que estamos indo, fica difícil manter a esperança de que as gerações vindouras poderão conhecer a nossa história, além daquelas contadas pelos políticos, a de que a reforma da pracinha do bairro da periferia, onde nem coleta de lixo é feita, é a grande obra de seus mandatos.

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Imagens: Facebook do IHGM.

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